Política

Parlamento aprova novas leis da comunicação social após duas décadas de debate

Por Paulo Manjate • 23/03/2026 15:29
Parlamento aprova novas leis da comunicação social após duas décadas de debate
O Parlamento moçambicano aprovou, esta quinta-feira (18), na generalidade e por consenso, o pacote legislativo que renova o quadro legal da comunicação social no país, após um processo de discussão que se arrastava há mais de 20 anos.

As três leis aprovadas, Lei da Comunicação Social, Lei da Radiodifusão e Lei do Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS), introduzem mudanças significativas num sector em transformação, incluindo a obrigatoriedade de licenciamento para órgãos digitais e a criação de quotas para conteúdos nacionais.

A votação contou com o apoio das quatro bancadas parlamentares: Frelimo (partido no poder), Podemos (líder da oposição), Renamo e MDM.

Avanços e inovações

Na fundamentação, a deputada Elcina Eugénio, presidente da Comissão dos Assuntos Sociais, justificou a necessidade da revisão com o desfasamento da legislação anterior, datada de 1991, face à realidade actual.

“Um dos principais impactos desta lei é a valorização e profissionalização dos fazedores da comunicação social, assegurando o reforço da protecção dos seus direitos laborais”, afirmou.

A nova Lei da Radiodifusão estabelece uma quota mínima de 80% de conteúdos nacionais, uma medida que, segundo o MDM, visa “promover a identidade nacional e os valores culturais, num mundo cada vez mais globalizado”. A legislação prevê ainda a protecção dos serviços noticiosos contra interferências políticas e empresariais.

O texto também criminaliza actos que incitem à discriminação e promove o uso da língua de sinais e das línguas nacionais nos meios de comunicação.

Preocupações da oposição e da sociedade civil

Apesar do consenso na votação, partidos da oposição e organizações do sector manifestaram cautela quanto à implementação das novas normas. O alerta centra-se no risco de o Estado usar o diploma para controlar a imprensa, em vez de apenas a organizar.

“Organizar não pode significar controlar a comunicação social. A comunicação social não é extensão do poder político, é um contrapoder democrático”, alertou Sebastião Mussanhane, chefe da bancada do Podemos.

A Renamo apelou à independência dos jornalistas. “Apelamos aos jornalistas que não se deixem manipular, nem se instrumentalizar a ponto de perderem a qualidade de informar”, declarou o porta-voz da bancada, Arnaldo Chalaua.

Entretanto, organizações como o Fórum Nacional das Rádios Comunitárias (FORCOM) preferem não falar em “armadilhas”, mas reconhecem que há aspectos que exigem “atenção e cautela”. A análise aprofundada do texto final está ainda em curso.

A votação final das três leis está prevista para os próximos dias, após a apreciação na especialidade. O novo quadro legal entra em vigor num contexto marcado pela expansão dos meios digitais e por um debate contínuo sobre os limites entre a regulação e a liberdade de imprensa em Moçambique.